sábado, outubro 07, 2017

Ao Luar

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Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


sexta-feira, setembro 15, 2017

Tudo o que vejo

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Era tarde nas janelas da sala,
Um gosto de tarde que eu queria lamber.
Tenho vontade de lamber as coisas que gosto,
Mesmo as que não gosto costumo lamber sem querer.
Às vezes com a língua mesmo.
Molhada e escorrida.
Outras vezes uso a língua da palavra,
Quando tem cheiros ruins
Ou asperezas estranhas ao paladar de minha pessoa,
Ou por nada mesmo por gosto
Passo a língua nas coisas que vejo
E passo as coisas que vejo pra língua.

                                                                                   Viviane Mosé

quinta-feira, setembro 07, 2017

Ode à vida

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A partir de um dia qualquer
Eu não estarei mais aqui
Sob este sol de inverno 
Sob esta luz sedutora
A tocar minha pele.

A partir de um dia qualquer
Eu não mais me moverei
Por estes espaços 
Escondidos entre as coisas
Por estes sutis abismos

Para onde me guiei
Por minhas próprias mãos.
E não mais exultarei 
Não transbordarei 
Como de costume.

Haverá o dia em que 
O gosto na boca do café
E do poema não mais 
Encontrarão em mim
Um corpo onde deitar.

E o som das matas 
O vento nas folhas 
O rio correndo
Meu filho dizendo mãe
Não mais perpassarão 
Os meus ouvidos.

As cidades, as pessoas 
O trânsito lento, as festas
De rua, os banhos de mar
Continuarão sem mim.
Então que o meu rastro

Em forma de culto e de reza
Em forma de mantra e de música, 
seja o registro de um amor 
Incondicional 
Pela vida.

Esta vida, contraditória
Intensa e bela,
A esta vida dedico 
O meu melhor, se houver.

Viviane Mosé


sexta-feira, setembro 01, 2017

Elizabeth Bishop

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A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério.